segunda-feira, 30 de junho de 2014

O tio

"O passado não reconhece seu lugar, ele está sempre presente" - Mario Quintana

O nome Facebook, é uma referência aos tradicionais álbuns das instituições de ensino americanas, onde cada turma registra fotos, fatos curiosos de cada um de seus componentes, se tornando, no futuro, uma fonte de recordações.

O Facebook, a rede social, para mim, sempre teve este espírito. Reunir amigos cujo contato julgávamos perdido. Mais que as postagens, fotos, e outras funcionalidades e futilidades, é interessante saber que existe um lugar, como uma praça, onde pode-se sempre encontrar seus amigos, recentes ou antigos.

Na semana passada, reencontrei com um amigo distante. O reencontrei numa foto preto e branco, postada por meu primo, marrento num uniforme de futebol, futebol amador, não a sua amada Academia palmeirense: meu tio Eduardo.

A forma de como chama-lo, que deixou o título deste post meio vago, na verdade diz muito sobre ele. Seu nome de batismo era Eduardo, mas as irmãs chamavam por Eduardinho. Alguns da família o tratavam por Tio Vichi, o que era muito pouco elucidativo num ambiente  em que todos compartilham o mesmo sobrenome. Por isso, nós, sobrinhos, o chamavámos de O Tio.

A expressão falada presume as iniciais em maiúsculas, que a escrita oficializa. O Tio. Artigo masculino, definido, singular. Havia outros tios, igualmente queridos. Mas o Tio tinha uma ascendência diferente sobre nós.

Podia ser pelo fato de, primogênito, ter assumido logo cedo atribuições em relação aos seus irmãos, quando nosso avô se foi, visto pelos irmãos como um quase-pai.

Poda ser por ser químico. Um cientista celebrado no mundo real, e nossa imaginação pueril fazia o resto, atribuindo super poderes advindos de suas fórmulas secretas.

Podia ser por ter vivido na Inglaterra. Pode parecer bobagem num mundo globalizado, mas numa família com raízes em Serra Negra, era uma conquista dele, e que levou um pouco de cada um de nós junto.

Podia ser pelo seu infinito carinho conosco. Do alto de sua consagração acadêmica e profissional, o Tio nunca se furtou a uma brincadeira conosco. 

Tudo isso fazia do tio Eduardo o Tio. Simples assim.

O Tio era politizado. Entendia pouco das conversas, mas estar sintonizado com as idéias do tio era um caminho seguro para parecer inteligente. Sem saber bem o porquê, me considerei comunista por um bom tempo. A ponto de, na Copa de 1982, torcer pela União Soviética contra o esquadrão de Telê.

Fiquei arrasado com o gol da virada do Brasil, onde o goleiro Dasayev sequer se moveu (e que, anos depois, sem o viés ideológico, reconheço que foi uma obra-prima do Eder Aleixo)

O Tio fumava, prazer que anos depois cobraria seu preço. Mas, descobri agora, era atleta, um apaixonado por futebol na teoria, e um habilidoso meia direita na prática. Imagino-o um meia direita cerebral, com visão de jogo e passes precisos, mas nunca o vi jogar. Talvez seja apenas um estereótipo romântico. Talvez seja a afinidade entre o Tio e o adjetivo "cerebral". Ou talvez ele fosse mesmo um Didi careca.

O Tio era judeu. Na época, para mim, era uma curiosidade sem maior importância. Nossa família, embora italiana, é bastante eclética em termos religiosos, e na época esse era um fato que não chamava minha atenção. Era diferente, mas eu não sabia dizer o porquê. Também não sei se o Tio, homem da ciência, ligava para religião. Ou se realmente abraçou os preceitos do Judaísmo. Ou se foi somente um pedágio para casar com uma gaúcha culta e de olhos claros...

A perda do Tio ocorreu há alguns anos. Daquela data para cá, a família se aproximou. Uma das coisas que contribuiu foi o nascimento de muitos sobrinhos. A outra, foi a facilidade proporcionada pelo Facebook, a "pracinha", onde encontramos nossos amigos e parentes queridos quando der vontade...

Mas gosto de pensar que foi por termos percebido repentinamente que a vida é muito fugaz, e a sensação de que não aproveitamos o tempo com quem amamos é muito amarga.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

DIlma e eu

"The economy, stupid" - James Carville

Não votei em Dilma. Em 2010, no auge do otimismo com a economia, achei descabido confiar a liderança do país a alguém inexperiente. Votei em Marina, no primeiro turno, e em branco, no segundo - fruto de minha rejeição ao José Serra.

No entanto, vi com muito bons olhos sua vitória. Acredito, de coração, que Dilma seja honesta e bem-intencionada. Também me alegrou sua falta de ambição política: sem aspirar a nenhum cargo maior, Dilma parecia ser a pessoa certa para comprar as brigas que o país precisa, sem medo de eleitor ou congresso.

Em 2010, trabalhava num cargo com responsabilidade sobre a America Latina. Lembro de pelo menos 2 ocasiões, uma em Bogotá e uma em Santiago, de ter defendido o início de seu governo.

Hoje, sou um ferrenho opositor da renovação de seu mandato. Olhando para trás, onde foi que a coisa desandou?

Em primeiro lugar, a gestão econômica. Os resultados de PIB, inflação, juros mostram que a política de crescimento ancorado no incentivo ao consumo e na gastança estatal está esgotada. É uma política keynesiana que já salvou muitas economias, mas a recusa de Dilma em admitir que a política necessita de ajustes condenou o Brasil a um horizonte de estagflação (ou de ajustes  doloridos que certamente implicarão em desemprego, já em 2015).

Dilma me decepcionou como líder. Surpreendentemente, Dilma tem pulso mole. O propagado rigor se sua personalidade não se manifesta na sua gestão. Em que momento Dilma chamou seus colaboradores, e cobrou "olha aqui, estas obras estão superfaturadas e atrasadas. Se não regularizar em 3 meses, é todo mundo na rua". Não. Dilma preferiu a complacência, o deixa-rolar, as frases de efeito, incompatíveis com a gerentona que foi vendida.

Dilma também errou na política. A isenção de quem não tinha ambição política logo revelou-se o que todos temiam... um fantoche de Lula. O esforço para agradar todos, combinado a inabilidade política de Dilma, revelaram uma caricatura de populista. Foi reveladora a reação de Dilma à voz das ruas. Depois de quase 2 semanas, em que a prioridade foi o marketing, e não ouvir as ruas, a presidente fez um pronunciamento vago e pífio, fragmentando as grandes manifestações genéricas por pequenas manifestações específicas, em quase toda parte. 

Acredito de verdade que Dilma seja honesta e bem intencionada. Acredito que para Dilma, a convivência com corruptos notórios é dolorida, como foi com Marin na CBF. Suas relações incestuosas com o PMDB, a falta de um posicionamento firme de apoio institucional ao Supremo  no caso dos condenados do Mensalão mostra um grau de tolerância a corrupção maior do que seu caráter me permite supor.

Finalmente: o governo Dilma simplesmente passou. FHC merece o crédito de ter estabilizado o país e conquistado respaldo internacional. Lula merece o crédito da continuidade da política econômica e da ampliação da inclusão social. O governo Dilma simplesmente passou. Qual a grande marca de Dilma? Uma Copa com atrasos, as manifestações contra corrupção, escândalos da Petrobrás, a volta da inflação, a desaceleração econômica?

É muito pouco para quem chegou ao poder cercada de tanta expectativa. 

Dilma foi ofendida na abertura da Copa, e provavelmente será na entrega da taça ao campeão. Acho que as vaias se dirigem muito mais a situação do pais do que à pessoa da presidente, embora, sendo nominais, sejam ofensivas a ela.

E, se os xingamentos foram molecagem, a vaia à sua gestão foi merecida.



segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Brasil precisa do PT...de 1986

"A democracia não corre, mas chega segura ao seu objetivo" - Johann Goethe


Uma das coisas que me incomodou durante os protestos de junho de 2013 foi o fato de que nenhuma liderança política foi capaz de capitalizar a indignação nas ruas e reverte-las em mudanças. Em tempos passados, importantes movimentos foram liderados por protagonistas como Ulysses Guimarães, Mario Covas, Lula, Franco Montoro, Leonel Brizola.

Em 2013, nenhum político teve a coragem de tomar a frente da massa. Coragem, no sentido de temer pela integridade física e moral. Nenhum deles teve legimitidade de pegar o megafone, seguro de representar os anseios por mudanças, ainda que expresso de forma vaga.

Dos partidos que surgiram após a ditadura militar, nenhum soube se conectar tão bem aos anseios populares quanto o PT. Ousou incluir o próprio período militar, pois o MDB (em grande parte pela repressão) nunca cativou tantos segmentos, tão distintos, e com tanta profundidade.

Liderados pelo carisma e autenticidade de Lula, o partido deixou de ser apenas "dos Trabalhadores". O PT tornou-se o partido da dona de casa, do universitário do pequeno comerciante, do funcionário público. Não apenas um partido que serve de coadjuvante a um candidato, mas sim um partido com identidade e ideologia. 

Podia-se questionar a ideologia, podia-se odiar as propostas. Mas, inegavelmente, o PT tinha uma identidade, predominantemente positiva. Com efeito, o estatuto do PT deixava claro seu posicionamento em prol da ética em seu estatuto.

Artigo 231 do CAPÍTULO III ─ DAS PENALIDADES que seriam tratados sem clemência companheiros envolvidos em bandidagens comprovadas. O inciso XII explicita um dos casos aos quais será aplicada a pena de expulsão: “Condenação por crime infamante ou por práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado. Parágrafo único: A pena de expulsão implica o imediato cancelamento da filiação partidária, com efeitos na Justiça Eleitoral”.

A aura ética do PT atraía eleitores, mas também quadros: intelectuais, economistas, empresários cerravam flieiras, seguindo o bordão que honestidade é pré-requisito para a vida pública. O trabalho de oposição do PT, as vezes radical, era impecável, e garantia um bom equilíbrio de forças com os governos situacionistas.

Com bons quadros, uma imagem ética e apoio genuíno da população, o PT começou a conquistar cargos legislativos e executivos.

No poder, o PT precisou fazer alianças para governar. A dimensão nacional que o partido atingiu trouxe também quadros menos identificados com a gênese do partido. Casos de corrupção começam a envolver nomes do partido, e a resposta, inicialmente enérgica, vai ser tornando mais tolerante com as práticas.

Membros do núcleo do partido, condenados no STF, não foram expulsos, conforme previsto no estatuto, mas ainda forçaram Lula a um constrangedor ataque às instituições que fizeram seu trabalho, e cujos membros, em sua maioria, ele indicou.

Em resumo, o PT não mudou o poder, o poder mudou o PT.

Evidentemente, não faz sentido um partido objetivar a oposição. O governo é o caminho natural de qualquer partido. Também é sabido que, no jogo político nacional, são necessárias alianças com políticos de moral duvidosa. E também é sabido que as denúncias de corrupção que atingem o PT frequentemente atingem outros partidos também. Então, qual o problema?

Em primeiro lugar, o PT dos anos 80 era o único que poderia reivindicar com legitimidade a isenção ética em relação às apodrecidas instituições políticas. Dos outros partidos. o eleitorado "já esperava" estes deslizes.Quando o PT perdeu este diferencial, as ruas ficaram orfãs de uma representação próxima, de uma vida política perene e não lampejos a cada eleição.

Em segundo, nenhum partido surgiu para ocupar este espaço. Há partidos com isenção, com o o PV ou o PSOL, mas ainda muito pouco representativos no cenário político. Mesmo a ascenção de Marina, em 2010, não pode caracterizar o preenchimento desta lacuna, pois foi claramente um voto personalíssimo, focado na figura de Marina, e não na instituição à qual ela é filiada.


O Brasil precisa do PT de 1986. Uma partido com alta legitimidade das ruas, e dos diversos segmentos da população. Que conheça o povo na rua, e não das pesquisas de opinião. Que carregue o estandarte da ética sem ser  alvo de chacota.

O PT tenta voltar a ser esse partido. A lúcida entrevista de Gilberto Carvalho, profundo conhecedor do PT, mostra esta intenção. Que o PT consiga, ou que alguém o faça...