domingo, 27 de julho de 2014

Eu concordo com tudo

"Nunca houve uma guerra boa, nem uma paz ruim" - Benjamin Franklin



Eu concordo que os palestinos tem direito a terra para fundar sua nação, no local onde por séculos viveram sob outras bandeiras.

Eu concordo que, após anos de dispersão e perseguições, os judeus tenham direito a uma pátria para viver em segurança suas vidas.

Eu concordo que os palestinos vejam a colônias judaicas como ocupação territorial de áreas pacificadas desde as Guerras dos Seis Dias e Yom Kippur.

Eu concordo que o Hamas não representa o povo palestino. É um grupo terrorista radical, distante dos cidadãos palestinos que querem levar sua vida em paz, e cujas vidas mais prejudica do que beneficia.

Eu concordo que Israel tem direito de autodefesa, de proteger seus cidadãos de agressões externas ou internas.

Eu concordo que o custo humano da ofensiva israelense é muito alto, tanto em número de baixas, quanto pela exigência que as pessoas abandonem suas casas e bens.

Eu concordo que Israel tem em sua história capítulos sangrentos, como o ataque a Sabra e Chatila.

Eu concordo que Israel não está empreendendo uma campanha de genocídio - sendo a potência militar que é, se decidisse fazê-lo, as baixas seriam infinitamente maiores, mesmo usando apenas o arsenal convencional.

Eu concordo que o Hamas usa escudos humanos, para ganhar a guerra ideológica contra Israel. 

Eu concordo que Israel, constituído como um Estado de direito, signatário de diversos tratados humanitários, tenha a obrigação moral de preservar as vidas civis, jogando dentro das regras de civilidade que não obrigam o Hamas.

Eu concordo que o Hamas tenha rejeitado vários cessar-fogo, o que deixa ainda mais evidente seu interesse em lucrar com perdas humanas, em uma guerra que não pode vencer so com seus foguetes.

Eu concordo que a diplomacia brasileira é parcial, pequena, covarde e partidária: entrega dissidentes cubanos, e protege criminosos comuns italianos. silencia sobre a quebra da soberania ucraniana, mas esperneia sobre a palestina. Esbraveja contra a intromissão americana, mas é submissa aos caprichos venezuelanos.

Eu concordo que a nota da chancelaria israelense errou o tom ao se dirigir a um par da comunidade internacional como o Brasil, uma bravata que não traz nada, mas implica em perda de capital político, ao menos em território brasileiro.

Eu concordo com tudo. E mesmo assim, não consigo concordar com essa insanidade toda...






sexta-feira, 11 de julho de 2014

Da crise hidríca no sistema Cantareira

"Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove não poderão ir para o Céu - lá sempre faz bom tempo!" - Mario Quintana



Dia a dia, se agrava a situação do sistema Cantareira. Uma combinação única de fatores meteorológicos, falta de planejamento, e improdutivas discussões eleitoreiras deixa a maior cidade do país ameaçada de falta de um dos bens mais básicos a sobrevivência, a água limpa e de qualidade.

Me parece infantil creditar a crise ao governo Alckmin. É quase uma rendição, como a do garoto que, acuado, diz que a mãe do amigo é gorda.

O governador tem pendências com a população inquestionáveis. Áreas como a educação, sobretudo a situação financeira das universidades. Em que pese as universidades estaduais paulistas serem centros reconhecidos de excelência, este posicionamento está em risco. Mais do que o status, a situação financeira da USP é delicada.

Também cai na conta do governador Alckmin a segurança pública. Estatísticas do governo sempre se tornam pouco críveis quando confrontadas com a realidade, a sensação de insegurança, o número de conhecidos que foram tocados direta ou indiretamente pela violência, os hábitos que se alteram, as vizinhanças que se deixa de frequentar. 

Também se espera do chefe do Executivo estadual apoio incondicional as investigações sobre os trens do Metro, cada vez mais perto de membros influentes de seu partido.

Mas a questão hídrica é mais delicada. A intensidade da seca é algo novo, algo difícil de se prever. Poderíamos ter construído um novo reservatório para uma calamidade destas? Certamente que sim. 

Mas... seria uma prioridade no uso de impostos? Deveríamos instalar aquecedores em Teresina ou Cuiabá para o caso hipotético de um inverno escandinavo? Deveríamos equipar nosso exército para o caso de uma invasão americana ou russa? Deveríamos construir abrigos para o choque de um cometa ou num plano de contingência para um apocalipse zumbi?

Certamente que não.

Qualquer avaliação de investimento deve considerar o impacto vs a probabilidade. Costuma-se dizer, e não sei se é verdade, que a tecnologia atual poderia fazer aviões mais seguros. Mas o custo destas melhorias marginais tornaria proibitivo o custo de operação. Entende-se que o grau de segurança atual já é tão elevado, que não se justifica a o custo / benefício incremental.

O dimensionamento segue o "paradoxo de Aparecida", ou seja, uma basílica que diariamente recebe centenas de pessoas, mas que em um dia, recebe 200.000 mil. Que dimensão devem ter os serviços desta basílica? Certamente a nave deve ser dimensionada para o máximo, mas uma série de serviços opera o ano todo com capacidade reduzida, sendo ampliada apenas nas datas mais importantes.

Me parece claro que a seca de 2014 foi um acidente histórico, cuja prevenção nunca foi prioridade, pela baixíssma probabilidade de ocorrer. 

Mas ocorreu. E isso significa que pode ocorrer de novo. Se o governo Alckmin teve o pecado venial de apostar contra a natureza e perder, não ter um plano de contingência para mais um ano de estiagem certamente será um pecado mortal.



A via progressista

"Não vamos desistir do Brasil" - Eduardo Campos



Sou um dos que responderia ao pesquisador do IBOPE que "Não conheço" Eduardo Campos. Esperava que a campanha me desse a oportunidade de conhecer um pouco mais suas idéias, já que votei em Marina Silva em 2010.

Não houve tempo para que ele se tornasse meu candidato. Lamento pelo homem, pelo marido, pelo pai de família.

Lamento também por perdermos um representante viável da Terceira Via. Mais que sua biografia ou a capacidade que poderia vir a demonstrar, Eduardo Campos tinha um poderoso ativo político no fato de estar fora da polarização, da oposição incondicional que PT e PSDB se impõem mutuamente.

Se teria liderança ou competência para fazer um Brasil melhor que o de Aécio ou Dilma, é outra história. Mas que ele poderia unir setores progressistas do PSDB e do PT, por estar livre da oposição sistemática que estes partidos se opõem.

Poderia liderar uma agenda que nos permitisse enfrentar nossos profundos desafios econômicos e reverter  séculos de caminhões-pipa, crianças no semáforo, e macas no corredor, sem depender do coronéis, dos decanos do atraso, do PMDB, do entulho autoritário.

Maluf, Collor, Renan, Jader Barbalho, Sarney estão aí, 30 anos apos o fim da ditadura, como pilares do apoio ao PT. Assim como o foram, com ACM, "fiadores de governabilidade" de FHC. A aliança que, na intenção de promover o progresso, se alia ao atraso.

A polarização entre PSDB e PT divide a agenda progressista, e fortalece aqueles que vendem apoio.

Essa radicalização esteriliza os avanços e traz a obrigação de oposição sistemática. Um petista, por exemplo, precisa negar que o Plano Real foi essencial para a redução da miséria no Brasil. Um tucano, por sua vez, vai sempre acusar o Bolsa Família de eleitoreiro.

O alinhamento incondicional com esta ou aquela ideologia, sem crítica, flerta com o fanatismo, e leva ao empobrecimento do debate. O argumento inteligente perde espaço para a ofensa irracional, a análise criteriosa cede lugar ao estereotipo simplista: o coxinha, o reaça, o petralha, o comuna.

Sabemos que filiação partidária, por si, não é atestado de idoneidade ou competência. Desnecessário dizer o quanto o Brasil perde quanto um lado usa os erros do outro para justificar os seus.

Se a critica visa o caso Alston, a resposta virá sempre em lembrar do Mensalão. Se o ataque for ao PIB de Dilma, a resposta são os juros de FHC. Um perde-perde, onde ganhar a discussão é mais importante que melhorar o pais.

Um país de dividido em duas facções, decidindo seu voto com a lucidez de um hooligan.

O resultado é previsível. Quem quer que vença esta eleição terá, contra si, 45 milhões de votos. Opositores transformados em inimigos. 

A História nos ensina que nenhum povo dividido conseguiu grandes progressos. Alemanha e Itália só se tornaram protagonistas mundiais apos suas respectivas unificações, enquanto Portugal, Espanha, Inglaterra, tiraram vantagem de sua unidade nacional precoce e foram hegemônicos por muito tempo.

Na contramão, os colonizadores sempre procuravam dividir seus inimigos para enfraquecê-los. Isso possibilitou que países pequenos dominassem territórios e populações muito maiores, que acabaram dominadas ou mesmo destruídas.

O desafio que o próximo presidente irá encontrar é gigantesco. E será ainda maior num pais dividido pelo ódio e pelas rusgas ideológicas: acredito certeza que o maior desafio do próximo presidente não será a inflação ou o PIB, mas sim liderar um governo de unidade nacional.

É possível fazer isso num cenário político sem Eduardo Campos?

No início dos anos 80, as forças democráticas do Brasil escreveram sua mais bela página. A luta contra os arbítrios da ditadura militar uniu liberais, comunistas, socialistas, social-democratas, trabalhistas, em prol de uma agenda de liberdade e democracia. Um amplo espectro de ideologias se uniu por um bem maior, sem nunca negligenciar as divergências.

Franco Montoro, Ulysses Guimarães, Lula, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Mario Covas, Teotônio Vilela, Rogê Ferreira, Roberto Freire, Jarbas Vasconcelos, Fernando Henrique Cardoso, José Dirceu, Tancredo Neves, Eduardo Suplicy e José Serra são alguns destes nomes, que colocaram o Brasil acima de diferenças partidárias.

Diretas Já, Fora Collor, foram momentos que as lideranças políticas souberam abandonar seus projetos imediatos de poder em nome de uma prioridade maior. 

PT e PSDB tem naturalmente agendas conflitantes, mas têm setores dispostos a apoiar uma agenda de desenvolvimento que pode ser definida desde agora, que o vencedor se comprometa a executar, e o vencido, a apoiar.

Uma agenda que decline o apoio das forças conservadoras que tem chantageado governos sucessivos apenas visando seu próprio benefício.

Uma frente ampla contra o coronelismo”, como diz o senador Randolfe Rodrigues, do PSOL.

Essa agenda poderia ter como pauta:

1.     Ética (fim de foro privilegiado para políticos, exceto “crimes de opinião) 

2.  Reforma política (limitação do período em que cada cidadão pode ocupar cargo eletivo, revisão do coeficiente eleitoral, regras de financiamento de campanha e discussão sobre voto distrital

3.   Educação (15% do PIB revertido em educação básica e incentivo a pesquisa universitária pura e aplicada, gerando inovação e patentes)

4.   Distribuição de Renda (compromisso em manter e ampliar o Bolsa Família, com claro “plano de saída.

5.   Emprego (programa de capacitação de mão de obra, e apoio a geração de empregos em micro e pequena empresa)

6.  Simplificação do ambiente de negócios (reduzir a complexidade burocrática e a carga tributária que inibem o pequeno empreendedor)

7.  Estabilidade econômica e proteção da moeda (garantir que não haja risco de volta da inflação, cujos danos são muito maiores nas camadas mais pobres da população)

Pode ser que a agenda do desenvolvimento seja composta exatamente estes 7 pontos. Pode ser que haja outros a acrescentar. E pode ser que sejam pontos completamente diferentes destes que sugeri.

Não importa.

Os candidatos gastarão gastos centenas de milhões de reais para provar ao eleitor sua aptidão em nos governar. Grande parte desse investimento, porém, visa mostrar a inaptidão de seu adversário.

Não seria mais produtivo que, disputa a parte, equipes de ambos trabalhassem nesta agenda comum, a ser assumida por quem quer que vença? Seja Dilma, Aécio, ou Marina.

Este momento de comoção e perda, é perfeito para que estes senhores tenham a grandeza de colocar o Brasil acima do seu partido, e unir nosso povo numa agenda mínima de colaboração e progresso.

Vida longa ao lepo lepo

"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas, para a produção da beleza musical... a experiência da beleza tem de vir antes" - Rubem Alves

Minha memória musical mais antiga me leva até Chico Buarque, um dos favoritos do meu pai, e a Bach, que minha mãe costumava executar em seu piano. Porém, tanto a MPB quanto a música clássica nunca ocuparam um papel predominante em minha formação musical: eu só me reencontraria com o samba e a MPB depois de muitos anos, e meu contato com a música clássica vai pouco além do essencial.

Adolescente, ouvia rock, tantos os nacionais, principalmente o "rock de Brasília", quanto a pródiga geração dos anos 80: U2, Talking Heads, The Cure, Echo & the Bunnymen, AC/DC, Iron Maiden.

O gosto pelo rock me levou ao classic rock, Led Zeppelin, Pink Floyd, Rush, Stones, Doors, e daí ao blues. Em ordem inversa à cronológica, fui escavando nas músicas que eu gostava suas influências, até chegar aos spirituals, as encruzilhadas, e as plantações de algodão.

Essa dedicação à formação musical permite, ao longo do tempo, refinar seu gosto. intérpretes que já foram meus favoritos foram descartados, novos sons incorporados ao repertório,  de modo que hoje consigo ter o que chamo de uma cultural musical, que me coloca naquele grupo que diz "ouvir de tudo. Menos axé. E pagode. E funk. E sertanejo, só de raiz".

É o grupo que sente que cada ano a música cava mais fundo sua sepultura. Lembra que a gente reclamava do Tchan? Aí veio o Molejo. Quando achamos que era o pior, veio a dança do quadrado. O rebolation. A égüinha pocotó. O créu. O lelek. O Michel Teló. O quadradinho ed oito, O lepo lepo.

Somos os saudosista, sentados numa varanda conotativa, dizendo que "isso não é música". Que funk é James Brown, e não Valeska Popozuda. Que samba é Paulinho da Viola, não Negritude Jr. Que sertanejo é TOnico e Tinoco, e não Paula Fernandes.

Me divirto em imaginar um eu hipotético, há 100 anos, achando absurdo aquele tal de Robert Johnson tocar fora da Igreja.  Ou, esse tal de Cab Calloway, rebolando enquanto canta. Esse Elvis, rebolando. Pior, esses ingleses brancos do Led Zeppelin tocando música de negros. Ou esse Hendrix, tocando com a boca? 

Como teria sido qualificada a obra de Picasso ou Dali aos olhos dos impressionistas?

Não teriam nossos avós criticado o jazz, pois música boa era música clássica? Ou nossos pais dito que hip-hop não é música, não tem instrumento? Ou nós mesmos criticado um DJ cuja "orquestra" é um pendrive?

A beleza da música está na inovação. Na dialética que confronta o antigo e o novo, em busca novos ritmos. Um garoto que nos anos 70 ouvia os satanistas do Black Sabbath hoje pode ser um amante de jazz. A arte não escolhe porta de entrada.