"O passado não reconhece seu lugar, ele está sempre presente" - Mario Quintana
O nome Facebook, é uma referência aos tradicionais álbuns das instituições de ensino americanas, onde cada turma registra fotos, fatos curiosos de cada um de seus componentes, se tornando, no futuro, uma fonte de recordações.O Facebook, a rede social, para mim, sempre teve este espírito. Reunir amigos cujo contato julgávamos perdido. Mais que as postagens, fotos, e outras funcionalidades e futilidades, é interessante saber que existe um lugar, como uma praça, onde pode-se sempre encontrar seus amigos, recentes ou antigos.
Na semana passada, reencontrei com um amigo distante. O reencontrei numa foto preto e branco, postada por meu primo, marrento num uniforme de futebol, futebol amador, não a sua amada Academia palmeirense: meu tio Eduardo.
A forma de como chama-lo, que deixou o título deste post meio vago, na verdade diz muito sobre ele. Seu nome de batismo era Eduardo, mas as irmãs chamavam por Eduardinho. Alguns da família o tratavam por Tio Vichi, o que era muito pouco elucidativo num ambiente em que todos compartilham o mesmo sobrenome. Por isso, nós, sobrinhos, o chamavámos de O Tio.
A expressão falada presume as iniciais em maiúsculas, que a escrita oficializa. O Tio. Artigo masculino, definido, singular. Havia outros tios, igualmente queridos. Mas o Tio tinha uma ascendência diferente sobre nós.
Podia ser pelo fato de, primogênito, ter assumido logo cedo atribuições em relação aos seus irmãos, quando nosso avô se foi, visto pelos irmãos como um quase-pai.
Poda ser por ser químico. Um cientista celebrado no mundo real, e nossa imaginação pueril fazia o resto, atribuindo super poderes advindos de suas fórmulas secretas.
Podia ser por ter vivido na Inglaterra. Pode parecer bobagem num mundo globalizado, mas numa família com raízes em Serra Negra, era uma conquista dele, e que levou um pouco de cada um de nós junto.
Podia ser pelo seu infinito carinho conosco. Do alto de sua consagração acadêmica e profissional, o Tio nunca se furtou a uma brincadeira conosco.
Tudo isso fazia do tio Eduardo o Tio. Simples assim.
O Tio era politizado. Entendia pouco das conversas, mas estar sintonizado com as idéias do tio era um caminho seguro para parecer inteligente. Sem saber bem o porquê, me considerei comunista por um bom tempo. A ponto de, na Copa de 1982, torcer pela União Soviética contra o esquadrão de Telê.
Fiquei arrasado com o gol da virada do Brasil, onde o goleiro Dasayev sequer se moveu (e que, anos depois, sem o viés ideológico, reconheço que foi uma obra-prima do Eder Aleixo)
O Tio fumava, prazer que anos depois cobraria seu preço. Mas, descobri agora, era atleta, um apaixonado por futebol na teoria, e um habilidoso meia direita na prática. Imagino-o um meia direita cerebral, com visão de jogo e passes precisos, mas nunca o vi jogar. Talvez seja apenas um estereótipo romântico. Talvez seja a afinidade entre o Tio e o adjetivo "cerebral". Ou talvez ele fosse mesmo um Didi careca.
O Tio era judeu. Na época, para mim, era uma curiosidade sem maior importância. Nossa família, embora italiana, é bastante eclética em termos religiosos, e na época esse era um fato que não chamava minha atenção. Era diferente, mas eu não sabia dizer o porquê. Também não sei se o Tio, homem da ciência, ligava para religião. Ou se realmente abraçou os preceitos do Judaísmo. Ou se foi somente um pedágio para casar com uma gaúcha culta e de olhos claros...
A perda do Tio ocorreu há alguns anos. Daquela data para cá, a família se aproximou. Uma das coisas que contribuiu foi o nascimento de muitos sobrinhos. A outra, foi a facilidade proporcionada pelo Facebook, a "pracinha", onde encontramos nossos amigos e parentes queridos quando der vontade...
Mas gosto de pensar que foi por termos percebido repentinamente que a vida é muito fugaz, e a sensação de que não aproveitamos o tempo com quem amamos é muito amarga.
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