segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Brasil precisa do PT...de 1986

"A democracia não corre, mas chega segura ao seu objetivo" - Johann Goethe


Uma das coisas que me incomodou durante os protestos de junho de 2013 foi o fato de que nenhuma liderança política foi capaz de capitalizar a indignação nas ruas e reverte-las em mudanças. Em tempos passados, importantes movimentos foram liderados por protagonistas como Ulysses Guimarães, Mario Covas, Lula, Franco Montoro, Leonel Brizola.

Em 2013, nenhum político teve a coragem de tomar a frente da massa. Coragem, no sentido de temer pela integridade física e moral. Nenhum deles teve legimitidade de pegar o megafone, seguro de representar os anseios por mudanças, ainda que expresso de forma vaga.

Dos partidos que surgiram após a ditadura militar, nenhum soube se conectar tão bem aos anseios populares quanto o PT. Ousou incluir o próprio período militar, pois o MDB (em grande parte pela repressão) nunca cativou tantos segmentos, tão distintos, e com tanta profundidade.

Liderados pelo carisma e autenticidade de Lula, o partido deixou de ser apenas "dos Trabalhadores". O PT tornou-se o partido da dona de casa, do universitário do pequeno comerciante, do funcionário público. Não apenas um partido que serve de coadjuvante a um candidato, mas sim um partido com identidade e ideologia. 

Podia-se questionar a ideologia, podia-se odiar as propostas. Mas, inegavelmente, o PT tinha uma identidade, predominantemente positiva. Com efeito, o estatuto do PT deixava claro seu posicionamento em prol da ética em seu estatuto.

Artigo 231 do CAPÍTULO III ─ DAS PENALIDADES que seriam tratados sem clemência companheiros envolvidos em bandidagens comprovadas. O inciso XII explicita um dos casos aos quais será aplicada a pena de expulsão: “Condenação por crime infamante ou por práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado. Parágrafo único: A pena de expulsão implica o imediato cancelamento da filiação partidária, com efeitos na Justiça Eleitoral”.

A aura ética do PT atraía eleitores, mas também quadros: intelectuais, economistas, empresários cerravam flieiras, seguindo o bordão que honestidade é pré-requisito para a vida pública. O trabalho de oposição do PT, as vezes radical, era impecável, e garantia um bom equilíbrio de forças com os governos situacionistas.

Com bons quadros, uma imagem ética e apoio genuíno da população, o PT começou a conquistar cargos legislativos e executivos.

No poder, o PT precisou fazer alianças para governar. A dimensão nacional que o partido atingiu trouxe também quadros menos identificados com a gênese do partido. Casos de corrupção começam a envolver nomes do partido, e a resposta, inicialmente enérgica, vai ser tornando mais tolerante com as práticas.

Membros do núcleo do partido, condenados no STF, não foram expulsos, conforme previsto no estatuto, mas ainda forçaram Lula a um constrangedor ataque às instituições que fizeram seu trabalho, e cujos membros, em sua maioria, ele indicou.

Em resumo, o PT não mudou o poder, o poder mudou o PT.

Evidentemente, não faz sentido um partido objetivar a oposição. O governo é o caminho natural de qualquer partido. Também é sabido que, no jogo político nacional, são necessárias alianças com políticos de moral duvidosa. E também é sabido que as denúncias de corrupção que atingem o PT frequentemente atingem outros partidos também. Então, qual o problema?

Em primeiro lugar, o PT dos anos 80 era o único que poderia reivindicar com legitimidade a isenção ética em relação às apodrecidas instituições políticas. Dos outros partidos. o eleitorado "já esperava" estes deslizes.Quando o PT perdeu este diferencial, as ruas ficaram orfãs de uma representação próxima, de uma vida política perene e não lampejos a cada eleição.

Em segundo, nenhum partido surgiu para ocupar este espaço. Há partidos com isenção, com o o PV ou o PSOL, mas ainda muito pouco representativos no cenário político. Mesmo a ascenção de Marina, em 2010, não pode caracterizar o preenchimento desta lacuna, pois foi claramente um voto personalíssimo, focado na figura de Marina, e não na instituição à qual ela é filiada.


O Brasil precisa do PT de 1986. Uma partido com alta legitimidade das ruas, e dos diversos segmentos da população. Que conheça o povo na rua, e não das pesquisas de opinião. Que carregue o estandarte da ética sem ser  alvo de chacota.

O PT tenta voltar a ser esse partido. A lúcida entrevista de Gilberto Carvalho, profundo conhecedor do PT, mostra esta intenção. Que o PT consiga, ou que alguém o faça...






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