"A democracia não corre, mas chega segura ao seu objetivo" - Johann Goethe
Uma
das coisas que me incomodou durante os protestos de junho de 2013 foi o fato de
que nenhuma liderança política foi capaz de capitalizar a indignação nas ruas e
reverte-las em mudanças. Em tempos passados, importantes movimentos foram
liderados por protagonistas como Ulysses Guimarães, Mario Covas, Lula, Franco
Montoro, Leonel Brizola.
Em
2013, nenhum político teve a coragem de tomar a frente da massa. Coragem, no
sentido de temer pela integridade física e moral. Nenhum deles teve
legimitidade de pegar o megafone, seguro de representar os anseios por
mudanças, ainda que expresso de forma vaga.
Dos
partidos que surgiram após a ditadura militar, nenhum soube se conectar tão bem
aos anseios populares quanto o PT. Ousou incluir o próprio período militar,
pois o MDB (em grande parte pela repressão) nunca cativou tantos segmentos, tão
distintos, e com tanta profundidade.
Liderados
pelo carisma e autenticidade de Lula, o partido deixou de ser apenas "dos
Trabalhadores". O PT tornou-se o partido da dona de casa, do universitário
do pequeno comerciante, do funcionário público. Não apenas um partido que serve
de coadjuvante a um candidato, mas sim um partido com identidade e
ideologia.
Podia-se
questionar a ideologia, podia-se odiar as propostas. Mas, inegavelmente, o PT
tinha uma identidade, predominantemente positiva. Com efeito, o estatuto do PT
deixava claro seu posicionamento em prol da ética em seu estatuto.
Artigo 231 do
CAPÍTULO III ─ DAS PENALIDADES que seriam tratados sem clemência companheiros
envolvidos em bandidagens comprovadas. O inciso XII explicita um dos casos aos
quais será aplicada a pena de expulsão: “Condenação por crime infamante ou por práticas
administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado. Parágrafo único:
A pena de expulsão implica o imediato cancelamento da filiação partidária, com
efeitos na Justiça Eleitoral”.
A aura ética
do PT atraía eleitores, mas também quadros: intelectuais, economistas, empresários
cerravam flieiras, seguindo o bordão que honestidade é pré-requisito para a
vida pública. O trabalho de oposição do PT, as vezes radical, era impecável, e
garantia um bom equilíbrio de forças com os governos situacionistas.
Com bons
quadros, uma imagem ética e apoio genuíno da população, o PT começou a
conquistar cargos legislativos e executivos.
No poder, o
PT precisou fazer alianças para governar. A dimensão nacional que o partido
atingiu trouxe também quadros menos identificados com a gênese do partido.
Casos de corrupção começam a envolver nomes do partido, e a resposta,
inicialmente enérgica, vai ser tornando mais tolerante com as práticas.
Membros do núcleo
do partido, condenados no STF, não foram expulsos, conforme previsto no
estatuto, mas ainda forçaram Lula a um constrangedor ataque às instituições que
fizeram seu trabalho, e cujos membros, em sua maioria, ele indicou.
Em resumo, o
PT não mudou o poder, o poder mudou o PT.
Evidentemente,
não faz sentido um partido objetivar a oposição. O governo é o caminho natural
de qualquer partido. Também é sabido que, no jogo político nacional, são necessárias
alianças com políticos de moral duvidosa. E também é sabido que as denúncias de
corrupção que atingem o PT frequentemente atingem outros partidos também. Então,
qual o problema?
Em primeiro
lugar, o PT dos anos 80 era o único que poderia reivindicar com legitimidade a
isenção ética em relação às apodrecidas instituições políticas. Dos outros
partidos. o eleitorado "já esperava" estes deslizes.Quando o PT
perdeu este diferencial, as ruas ficaram orfãs de uma representação próxima, de
uma vida política perene e não lampejos a cada eleição.
Em segundo,
nenhum partido surgiu para ocupar este espaço. Há partidos com isenção, com o o
PV ou o PSOL, mas ainda muito pouco representativos no cenário político. Mesmo
a ascenção de Marina, em 2010, não pode caracterizar o preenchimento desta
lacuna, pois foi claramente um voto personalíssimo, focado na figura de Marina,
e não na instituição à qual ela é filiada.
O Brasil
precisa do PT de 1986. Uma partido com alta legitimidade das ruas, e dos
diversos segmentos da população. Que conheça o povo na rua, e não das pesquisas
de opinião. Que carregue o estandarte da ética sem ser alvo de chacota.
O PT tenta voltar a ser esse partido. A lúcida entrevista de Gilberto Carvalho, profundo conhecedor do PT, mostra esta intenção. Que o PT consiga, ou que alguém o faça...
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