sexta-feira, 27 de junho de 2014

DIlma e eu

"The economy, stupid" - James Carville

Não votei em Dilma. Em 2010, no auge do otimismo com a economia, achei descabido confiar a liderança do país a alguém inexperiente. Votei em Marina, no primeiro turno, e em branco, no segundo - fruto de minha rejeição ao José Serra.

No entanto, vi com muito bons olhos sua vitória. Acredito, de coração, que Dilma seja honesta e bem-intencionada. Também me alegrou sua falta de ambição política: sem aspirar a nenhum cargo maior, Dilma parecia ser a pessoa certa para comprar as brigas que o país precisa, sem medo de eleitor ou congresso.

Em 2010, trabalhava num cargo com responsabilidade sobre a America Latina. Lembro de pelo menos 2 ocasiões, uma em Bogotá e uma em Santiago, de ter defendido o início de seu governo.

Hoje, sou um ferrenho opositor da renovação de seu mandato. Olhando para trás, onde foi que a coisa desandou?

Em primeiro lugar, a gestão econômica. Os resultados de PIB, inflação, juros mostram que a política de crescimento ancorado no incentivo ao consumo e na gastança estatal está esgotada. É uma política keynesiana que já salvou muitas economias, mas a recusa de Dilma em admitir que a política necessita de ajustes condenou o Brasil a um horizonte de estagflação (ou de ajustes  doloridos que certamente implicarão em desemprego, já em 2015).

Dilma me decepcionou como líder. Surpreendentemente, Dilma tem pulso mole. O propagado rigor se sua personalidade não se manifesta na sua gestão. Em que momento Dilma chamou seus colaboradores, e cobrou "olha aqui, estas obras estão superfaturadas e atrasadas. Se não regularizar em 3 meses, é todo mundo na rua". Não. Dilma preferiu a complacência, o deixa-rolar, as frases de efeito, incompatíveis com a gerentona que foi vendida.

Dilma também errou na política. A isenção de quem não tinha ambição política logo revelou-se o que todos temiam... um fantoche de Lula. O esforço para agradar todos, combinado a inabilidade política de Dilma, revelaram uma caricatura de populista. Foi reveladora a reação de Dilma à voz das ruas. Depois de quase 2 semanas, em que a prioridade foi o marketing, e não ouvir as ruas, a presidente fez um pronunciamento vago e pífio, fragmentando as grandes manifestações genéricas por pequenas manifestações específicas, em quase toda parte. 

Acredito de verdade que Dilma seja honesta e bem intencionada. Acredito que para Dilma, a convivência com corruptos notórios é dolorida, como foi com Marin na CBF. Suas relações incestuosas com o PMDB, a falta de um posicionamento firme de apoio institucional ao Supremo  no caso dos condenados do Mensalão mostra um grau de tolerância a corrupção maior do que seu caráter me permite supor.

Finalmente: o governo Dilma simplesmente passou. FHC merece o crédito de ter estabilizado o país e conquistado respaldo internacional. Lula merece o crédito da continuidade da política econômica e da ampliação da inclusão social. O governo Dilma simplesmente passou. Qual a grande marca de Dilma? Uma Copa com atrasos, as manifestações contra corrupção, escândalos da Petrobrás, a volta da inflação, a desaceleração econômica?

É muito pouco para quem chegou ao poder cercada de tanta expectativa. 

Dilma foi ofendida na abertura da Copa, e provavelmente será na entrega da taça ao campeão. Acho que as vaias se dirigem muito mais a situação do pais do que à pessoa da presidente, embora, sendo nominais, sejam ofensivas a ela.

E, se os xingamentos foram molecagem, a vaia à sua gestão foi merecida.



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