sexta-feira, 11 de julho de 2014

A via progressista

"Não vamos desistir do Brasil" - Eduardo Campos



Sou um dos que responderia ao pesquisador do IBOPE que "Não conheço" Eduardo Campos. Esperava que a campanha me desse a oportunidade de conhecer um pouco mais suas idéias, já que votei em Marina Silva em 2010.

Não houve tempo para que ele se tornasse meu candidato. Lamento pelo homem, pelo marido, pelo pai de família.

Lamento também por perdermos um representante viável da Terceira Via. Mais que sua biografia ou a capacidade que poderia vir a demonstrar, Eduardo Campos tinha um poderoso ativo político no fato de estar fora da polarização, da oposição incondicional que PT e PSDB se impõem mutuamente.

Se teria liderança ou competência para fazer um Brasil melhor que o de Aécio ou Dilma, é outra história. Mas que ele poderia unir setores progressistas do PSDB e do PT, por estar livre da oposição sistemática que estes partidos se opõem.

Poderia liderar uma agenda que nos permitisse enfrentar nossos profundos desafios econômicos e reverter  séculos de caminhões-pipa, crianças no semáforo, e macas no corredor, sem depender do coronéis, dos decanos do atraso, do PMDB, do entulho autoritário.

Maluf, Collor, Renan, Jader Barbalho, Sarney estão aí, 30 anos apos o fim da ditadura, como pilares do apoio ao PT. Assim como o foram, com ACM, "fiadores de governabilidade" de FHC. A aliança que, na intenção de promover o progresso, se alia ao atraso.

A polarização entre PSDB e PT divide a agenda progressista, e fortalece aqueles que vendem apoio.

Essa radicalização esteriliza os avanços e traz a obrigação de oposição sistemática. Um petista, por exemplo, precisa negar que o Plano Real foi essencial para a redução da miséria no Brasil. Um tucano, por sua vez, vai sempre acusar o Bolsa Família de eleitoreiro.

O alinhamento incondicional com esta ou aquela ideologia, sem crítica, flerta com o fanatismo, e leva ao empobrecimento do debate. O argumento inteligente perde espaço para a ofensa irracional, a análise criteriosa cede lugar ao estereotipo simplista: o coxinha, o reaça, o petralha, o comuna.

Sabemos que filiação partidária, por si, não é atestado de idoneidade ou competência. Desnecessário dizer o quanto o Brasil perde quanto um lado usa os erros do outro para justificar os seus.

Se a critica visa o caso Alston, a resposta virá sempre em lembrar do Mensalão. Se o ataque for ao PIB de Dilma, a resposta são os juros de FHC. Um perde-perde, onde ganhar a discussão é mais importante que melhorar o pais.

Um país de dividido em duas facções, decidindo seu voto com a lucidez de um hooligan.

O resultado é previsível. Quem quer que vença esta eleição terá, contra si, 45 milhões de votos. Opositores transformados em inimigos. 

A História nos ensina que nenhum povo dividido conseguiu grandes progressos. Alemanha e Itália só se tornaram protagonistas mundiais apos suas respectivas unificações, enquanto Portugal, Espanha, Inglaterra, tiraram vantagem de sua unidade nacional precoce e foram hegemônicos por muito tempo.

Na contramão, os colonizadores sempre procuravam dividir seus inimigos para enfraquecê-los. Isso possibilitou que países pequenos dominassem territórios e populações muito maiores, que acabaram dominadas ou mesmo destruídas.

O desafio que o próximo presidente irá encontrar é gigantesco. E será ainda maior num pais dividido pelo ódio e pelas rusgas ideológicas: acredito certeza que o maior desafio do próximo presidente não será a inflação ou o PIB, mas sim liderar um governo de unidade nacional.

É possível fazer isso num cenário político sem Eduardo Campos?

No início dos anos 80, as forças democráticas do Brasil escreveram sua mais bela página. A luta contra os arbítrios da ditadura militar uniu liberais, comunistas, socialistas, social-democratas, trabalhistas, em prol de uma agenda de liberdade e democracia. Um amplo espectro de ideologias se uniu por um bem maior, sem nunca negligenciar as divergências.

Franco Montoro, Ulysses Guimarães, Lula, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Mario Covas, Teotônio Vilela, Rogê Ferreira, Roberto Freire, Jarbas Vasconcelos, Fernando Henrique Cardoso, José Dirceu, Tancredo Neves, Eduardo Suplicy e José Serra são alguns destes nomes, que colocaram o Brasil acima de diferenças partidárias.

Diretas Já, Fora Collor, foram momentos que as lideranças políticas souberam abandonar seus projetos imediatos de poder em nome de uma prioridade maior. 

PT e PSDB tem naturalmente agendas conflitantes, mas têm setores dispostos a apoiar uma agenda de desenvolvimento que pode ser definida desde agora, que o vencedor se comprometa a executar, e o vencido, a apoiar.

Uma agenda que decline o apoio das forças conservadoras que tem chantageado governos sucessivos apenas visando seu próprio benefício.

Uma frente ampla contra o coronelismo”, como diz o senador Randolfe Rodrigues, do PSOL.

Essa agenda poderia ter como pauta:

1.     Ética (fim de foro privilegiado para políticos, exceto “crimes de opinião) 

2.  Reforma política (limitação do período em que cada cidadão pode ocupar cargo eletivo, revisão do coeficiente eleitoral, regras de financiamento de campanha e discussão sobre voto distrital

3.   Educação (15% do PIB revertido em educação básica e incentivo a pesquisa universitária pura e aplicada, gerando inovação e patentes)

4.   Distribuição de Renda (compromisso em manter e ampliar o Bolsa Família, com claro “plano de saída.

5.   Emprego (programa de capacitação de mão de obra, e apoio a geração de empregos em micro e pequena empresa)

6.  Simplificação do ambiente de negócios (reduzir a complexidade burocrática e a carga tributária que inibem o pequeno empreendedor)

7.  Estabilidade econômica e proteção da moeda (garantir que não haja risco de volta da inflação, cujos danos são muito maiores nas camadas mais pobres da população)

Pode ser que a agenda do desenvolvimento seja composta exatamente estes 7 pontos. Pode ser que haja outros a acrescentar. E pode ser que sejam pontos completamente diferentes destes que sugeri.

Não importa.

Os candidatos gastarão gastos centenas de milhões de reais para provar ao eleitor sua aptidão em nos governar. Grande parte desse investimento, porém, visa mostrar a inaptidão de seu adversário.

Não seria mais produtivo que, disputa a parte, equipes de ambos trabalhassem nesta agenda comum, a ser assumida por quem quer que vença? Seja Dilma, Aécio, ou Marina.

Este momento de comoção e perda, é perfeito para que estes senhores tenham a grandeza de colocar o Brasil acima do seu partido, e unir nosso povo numa agenda mínima de colaboração e progresso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário