"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas, para a produção da beleza musical... a experiência da beleza tem de vir antes" - Rubem Alves
Minha memória musical mais antiga me leva até Chico Buarque, um dos favoritos do meu pai, e a Bach, que minha mãe costumava executar em seu piano. Porém, tanto a MPB quanto a música clássica nunca ocuparam um papel predominante em minha formação musical: eu só me reencontraria com o samba e a MPB depois de muitos anos, e meu contato com a música clássica vai pouco além do essencial.Adolescente, ouvia rock, tantos os nacionais, principalmente o "rock de Brasília", quanto a pródiga geração dos anos 80: U2, Talking Heads, The Cure, Echo & the Bunnymen, AC/DC, Iron Maiden.
O gosto pelo rock me levou ao classic rock, Led Zeppelin, Pink Floyd, Rush, Stones, Doors, e daí ao blues. Em ordem inversa à cronológica, fui escavando nas músicas que eu gostava suas influências, até chegar aos spirituals, as encruzilhadas, e as plantações de algodão.
Essa dedicação à formação musical permite, ao longo do tempo, refinar seu gosto. intérpretes que já foram meus favoritos foram descartados, novos sons incorporados ao repertório, de modo que hoje consigo ter o que chamo de uma cultural musical, que me coloca naquele grupo que diz "ouvir de tudo. Menos axé. E pagode. E funk. E sertanejo, só de raiz".
É o grupo que sente que cada ano a música cava mais fundo sua sepultura. Lembra que a gente reclamava do Tchan? Aí veio o Molejo. Quando achamos que era o pior, veio a dança do quadrado. O rebolation. A égüinha pocotó. O créu. O lelek. O Michel Teló. O quadradinho ed oito, O lepo lepo.
Somos os saudosista, sentados numa varanda conotativa, dizendo que "isso não é música". Que funk é James Brown, e não Valeska Popozuda. Que samba é Paulinho da Viola, não Negritude Jr. Que sertanejo é TOnico e Tinoco, e não Paula Fernandes.
Me divirto em imaginar um eu hipotético, há 100 anos, achando absurdo aquele tal de Robert Johnson tocar fora da Igreja. Ou, esse tal de Cab Calloway, rebolando enquanto canta. Esse Elvis, rebolando. Pior, esses ingleses brancos do Led Zeppelin tocando música de negros. Ou esse Hendrix, tocando com a boca?
Como teria sido qualificada a obra de Picasso ou Dali aos olhos dos impressionistas?
Não teriam nossos avós criticado o jazz, pois música boa era música clássica? Ou nossos pais dito que hip-hop não é música, não tem instrumento? Ou nós mesmos criticado um DJ cuja "orquestra" é um pendrive?
A beleza da música está na inovação. Na dialética que confronta o antigo e o novo, em busca novos ritmos. Um garoto que nos anos 70 ouvia os satanistas do Black Sabbath hoje pode ser um amante de jazz. A arte não escolhe porta de entrada.
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